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  • 27

    JUN

    2015

    O Pragmatismo de John Dewey: De nada serve aos estudantes utilizar o intelecto para memorizar teorias que não são vinculadas a prática

    por Denis Plapler em 27/06/2015

    Compreender o pensamento de John Dewey nos auxilia a compreender sua influência sobre o pensamento de Anísio Teixeira e o movimento da Escola Nova no Brasil. Portanto é de grande valia analisar sua obra Reconstrução em Filosofia[1], um dos principais livros do filósofo e educador. Este livro foi fruto de uma palestra ministrada na Universidade Imperial do Japão em 1919, com o objetivo de expor os velhos e novos problemas filosóficos, esforçando-se para propor uma Reconstrução da Filosofia.  Mais tarde, aos 90 anos de idade, Dewey escreve a introdução que foi inserida no livro, na qual defende a ideia de que a reconstrução se faz ainda mais urgente pelo que observou no decorrer da história.

    A obra Reconstrução em Filosofia (DEWEY, 1959)[2] é indispensável por se tratar do principal texto do autor sobre filosofia e conhecimento. Nela Dewey reconstrói o significado e o sentido da filosofia dentro da sociedade, defendendo a necessidade de um sistema de parceria entre ciência e filosofia. Incumbe a filosofia de um papel fundamental, o de alertar a sociedade para as reflexões necessárias a partir das novas descobertas do desenvolvimento científico.  Nesta ótica a filosofia assume o caráter de avaliação ética do conhecimento. Partindo do princípio que a pesquisa científica trabalha com a descoberta, despertando a novidade, o pensador destaca os medos que o “novo” traz ao social justamente por acordar o imprevisível. A filosofia nos serve assim como orientação moral, um órgão regulador de conflitos, como campo possível para reflexão e cuidado com os adventos sociais. Para isto, a filosofia, ou os filósofos, precisariam aprender a renunciar à busca da absoluta realidade e sentirem-se recompensados em contribuir com a concretização de uma vida mais harmoniosa socialmente. Dewey se assume como pertencente à corrente do pragmatismo, no qual a questão da busca da verdade absoluta, rejeitada por ele, não se baseia apenas em uma intenção apaziguadora em busca de harmonia social, ela é fundamentada epistemologicamente e postula não apenas a impossibilidade racional de se alcançar o conhecimento absoluto, como demonstra também quão inadequado o seria para a filosofia.

    Johannes Hessen, em Teorias do Conhecimento (HESSEN, 2000)[3], elucida claramente as diferentes correntes do conhecimento e nos auxilia a compreender o pragmatismo, defendido por Dewey, a partir de seu fundamento epistemológico. Hessen explica como o pragmatismo elaborou positivamente o pensamento cético. Segundo ele, o ceticismo seria um ponto de vista essencialmente negativo e significa a negação da possibilidade do conhecimento: O sujeito seria incapaz de apreender o objeto. O pensamento pragmático (do grego prâgma, ação) também abandona o conceito de verdade, como o ceticismo, porém, coloca outro conceito de verdade no lugar do que foi abandonado.

     Verdadeiro passa a ser aquilo que é útil, valioso, promotor da vida. (HESSEN, 2000, p. 6)

     

    O pragmatismo entende o homem como um ser pensante, teórico e ativo, e não apenas pensante e teórico. O seu intelecto serve a sua ação, a sua vontade. O conhecimento humano retira o seu sentido e o seu valor desta determinação prática. A teoria precisa caminhar vinculada ao cotidiano, e vice versa.  Hessen apresenta William James como o fundador da corrente do pragmatismo e destaca também o filósofo inglês Schiller, que enxergou no pragmatismo uma forma de humanismo. Johannes Hessen escreveu que na Alemanha o pragmatismo encontrou respaldo no pensamento de Friedrich W. Nietzsche, que a partir  de uma concepção naturalista e voluntarista da essência humana afirmou: “A verdade não é um valor teórico, mas uma expressão para a utilidade, para a função do juízo que é conservadora de vida e servidora da vontade de poder”. Dentro da lógica do pensamento do pragmatismo entendemos que de nada adianta a busca da verdade se ela não tem uma utilidade prática. Utilizar o intelecto para criar teorias que não podem ser colocadas em prática, de nada nos serve. O conhecimento passa a ser verdadeiro na medida em que demonstra ser útil e benéfico para a vida humana, especialmente para vida em sociedade.

    Outro texto utilizado para a compreensão da fundamentação epistemológica de Dewey ao rejeitar a busca por uma verdade absoluta é Pragmatismo e cognição: self, mente, mundo e verdade na teoria pragmática do conhecimento[4]. Neste artigo Gilberto Cardoso Bouyer aponta a implicação dos conceitos de self, mente, mundo e verdade, de acordo com uma teoria pragmática do conhecimento. Explicando, por exemplo, através da abordagem pragmática, como a relação pessoa e ambiente é concebida. Ao invés de enxergarmos a pessoa inserida em um ambiente, as atividades da pessoa e do ambiente são vistas como partes de um todo mutuamente construído. A relação dentro e fora, entre pessoa e ambiente, é substituída pela relação parte e todo. Nas palavras do autor;

     

    A realidade é conhecida na experiência. O pragmatismo adota uma atitude antidualista e anti-idealista ao conferir primazia à experiência e à ação sobre o ser e o pensamento [...] No pragmatismo, mente e corpo não são entidades isoladas e/ou excludentes, assim como o homem não está isolado da natureza.  (BOUYER, 2010)

     

    Bouyer  nos explica que esta base sólida pela qual o ser humano buscou ou busca, por toda a vida, não existe: Este mundo estável é um mundo concebido por uma forma de conhecimento que pretende uma verdade absoluta, inalcançável e inexistente. Bouyer inclui John Dewey dentre os pensadores que fundamentam os seus argumentos:

     

    Segundo o pragmatismo de William James, John Dewey, Charles Sanders Peirce e Ferdinand Schiller, esta base não existe. O pragmatismo enfatiza a prioridade da ação e da experiência sobre a ideia de uma essência no pensamento e no ser. (BOUYER, 2012 )

     

    Compreendemos assim, que a verdade é uma construção delimitada por diversas origens dadas na realidade como a cultura, a história, a dimensão social.

    Bouyer afirma que para William James, “a verdade não é algo feito ou dado, mas sim algo produzido em um processo de constante produção”. O pragmatismo nega a visão de uma separação entre sujeito e objeto, mente e mundo, contestando o essencialismo e sua tradição de separar radicalmente mente e mundo exterior. Segundo Bouyer o pragmatismo de John Dewey e William James rompe com a tradição epistemológica kantiana combatendo as concepções essencialistas de verdade, conhecimento, linguagem e ciência.

     

     [...] pois entende que não faz sentido buscar conhecer as cosias como realmente são e acusar a percepção de desviar o nosso conhecimento de uma dita essência escondida nas coisas. O pragmatismo parte rumo a uma não-diferenciação metodológica entre moralidade e ciência; a não diferenciação epistemológica entre a verdade acerca do que deve ser e aquela acerca do que é; a não-diferenciação metafísica entre fatos e valores. (BOUYER, 2010, p. 4)

     

    Examinando o pragmatismo de John Dewey em Reconstrução em Filosofia observamos o esforço do filósofo em questionar a função realizada pela filosofia e a falta de coragem de seus fomentadores em dialogar com os problemas presentes, fazendo-nos lembrar a postura de tantos professores ainda nos dias de hoje.

     

     

     

     

     

     


    [1] DEWEY, John. Reconstrução em Filosofia. Nova tradução de Antônio Pinto de Carvalho, revista por Anísio Teixeira. 2. Edição –Companhia Editoria Nacional, São Paulo, 1959.

    [2] DEWEY, John. Reconstrução em Filosofia. Nova tradução de Antônio Pinto de Carvalho, revista por Anísio Teixeira. 2. Edição –Companhia Editoria Nacional, São Paulo, 1959.

    [3] HESSEN, Johannes, Teoria do Conhecimento. Martins Fontes: São Paulo, 2000,

     

    [4] BOUYER, Gilbert Cardoso, Pragmatismo e cognição: Self, mente, mundo e verdade na teoria pragmática do conhecimento. Ciência e Cognição 2010; Vol 15 (3); 164-179.

     

     

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Denis Plapler

Denis Plapler

Formado como Sociólogo pela PUC-SP e Mestre em Filosofia da Educação pela USP.