Educadores

  • 10

    JUL

    2015

    A vida escolar não pode ser apenas uma preparação para a vida adulta, as crianças já estão vivas

    por Denis Plapler em 10/07/2015

    Dizer as crianças que é preciso fazer qualquer coisa desagradável simplesmente por ser desagradável, pois “a vida é assim e não fazemos apenas aquilo que queremos”, nada diz de significativo a criança. Ainda assim, apelar a todo o tempo apenas para o interesse da criança também pode ser prejudicial a sua formação. A famosa e polêmica "Lição de Casa", por exemplo, precisa ser sempre significativa.

    A obra de John Dewey aposta na capacidade de pensar, questionar e problematizar a realidade por parte de seus alunos. Influente no movimento da Escola Nova, motivou pensadores brasileiros como Anísio Teixeira, também partidário da democracia como elemento fundamental na educação. A filosofia da educação de Dewey defende a ideia dos alunos empenharem-se em atividades práticas que proporcionem experiências coletivas de aprendizado, como podemos observar em Democracia e Educação[1].

    Persistente em estreitar relações entre a teoria e a prática, valorizava também a troca dialógica de experiências de situações cotidianas (DEWEY, 1959). Enxergava na escola um local de encontro potencializador. Não via a vida escolar como uma preparação para a vida adulta, mas uma oportunidade para recriação de significados, nos quais reflexão e ação são parte de um todo indivisível, pois, como afirmou, "Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo" (DEWEY; 2007). Para Dewey, não há separação entre vida e educação, e  a educação deve promover o constante desenvolvimento das crianças.

    Em sua obra, Dewey elabora uma profunda reflexão sobre as possibilidades de realização dentro da educação. Explicita a necessidade incondicional de uma sociedade verdadeiramente democrática para construir um sistema educacional que possa cumprir com os seu objetivo de habilitar os indivíduos a dar continuidade a sua educação, tomando como objeto da aprendizagem a capacidade de desenvolvimento constante. Dewey enxerga a educação como uma necessidade da vida humana independente da cultura e do tempo.

    O autor acredita que o problema principal está no fato de a sociedade contemporânea não ser realmente democrática, e na forma como a educação está inserida nesta sociedade. Trabalho e lazer, assim como individuo e sociedade, natureza e cultura, atividade prática e atividade intelectual, nada disto pode ser uma dualidade. Esta incoerência na maneira de estruturar o pensamento e a sociedade precisa ser superada para que possamos construir uma sociedade pautada em um novo modo de pensar, na democracia.

    Esta ruptura entre fim e meio, que segundo o autor, deprecia a importância da atividade educacional e tende a torná-la  um trabalho penoso, o qual o individuo evitaria se pudesse, e apenas realiza por obrigação ou medo, é o tema central de seu texto Interesse e Esforço.[2] Neste texto Dewey analisa tanto a teoria do esforço, que pretende ensinar através da insistência e da obrigação, como a do interesse, que visa estimular o aprendizado pelo desejo dos alunos.

    Dewey explica que a teoria do esforço, ao dizer para criança que é preciso fazer qualquer coisa desagradável simplesmente por ser desagradável, nada diz de significativo a criança. E esta não cumprirá tal tarefa se não for obrigada a isto. Porém, na medida em que esta pressão externa diminui, a atenção da criança pode se voltar a algo do seu interesse. (DEWEY, 1985)

    Na realidade, a teoria contradiz-se a si mesma. Psicologicamente, é impossível desenvolver qualquer atividade sem que algum interesse entre em jogo. A teoria do esforço substitui um interesse por outro. Substitui pelo interesse impuro do medo do professor ou esperança de qualquer recompensa, o interesse real e puro no material apresentado. (DEWEY, 1985)

    Contra a teoria do interesse, afirma Dewey, poderia se alegar que a vida está cheia de coisas desinteressantes e que devemos suportá-las, pois a vida é assim.

    A não ser que estejamos habituados a nos devotar a tarefa insípidas: a não ser que, por educação, nos acostumemos a fazer as coisas simplesmente porque devem ser feitas, sem nenhuma relação com a satisfação pessoal que nos possam trazer, nunca viremos a ter caráter nem força de vontade perante as coisas sérias da vida. A vida não é uma sucessão de amabilidades ou uma contínua satisfação de interesses pessoais. Tem que ser, pelo contrário, exercício contínuo de esforço no cumprimento de deveres, para que se forma o hábito de lidar com a laboriosa realidade da existência. Qualquer outra coisa destrói a fibra íntima do caráter e produz esses seres sem cor e sem vontade, moralmente dependentes e oscilantes ao sabor das solicitações da distração e do prazer. (DEWEY, 1985, p. 154)

    Dewey defende que apelar todo o tempo para o interesse também é prejudicial a formação da criança, pois, se tudo se torna diversão e brincadeira, suas atividades são constantemente interrompidas. O resultado disto é uma criança “mimada e estragada, que só faz o que quer” (DEWEY, 1985, p. 154). Como vimos, o esforço é necessário, mas deve estar ligado a satisfação pessoal, de forma que os hábitos desenvolvidos sejam realmente significativos, para que o caráter e os valores morais das crianças possam desenvolver-se de forma consistente.

    Ao examinar as duas teorias Dewey afirma que ambas procuram destruir-se mutuamente, ambas não reconhecem a identificação de fatos e atos com o indivíduo e ambas são prejudicais moral e intelectualmente.  Isto porque atentam não aos pontos fortes uma da outra, mas focam-se nos pontos fracos. Reconhecem o objetivo final como exterior ao individuo. Se o objeto de estudo precisa ser enfeitado para atrair o interesse da criança, ou necessita de esforço para que ela o apreenda, isto implica em acreditar que não há um vinculo entre o sujeito e o objeto, pois ambas as teorias precisam compreender exatamente isto. “O legítimo principio de interesse, entretanto, é o que reconhece uma identificação entre o fato que deve ser aprendido ou a ação que deve ser praticada e o agente que por essa atividade se vai desenvolver.” (DEWEY, 1985, p. 155). A todo tempo notamos  na concepção de educação de John Dewey uma preocupação com a formação moral das crianças, assim como uma preocupação de uma aprendizagem realmente significativa, da qual o objeto de estudo precisa estar interiormente ligado a questões do íntimo de cada criança.

    Com esta relação entre sujeito e objeto elaborada de forma a propiciar identificação dos agentes envolvidos, ele explica que os educadores não precisariam  apelar a todo momento para a força ou para a vontade, que formam, na concepção de Dewey indivíduos que ora aprendem a agir de forma mecânica e alienada, ora de forma a  imbecilizar a vida.

     

     


    [1] DEWEY, John, Democracia e Educação; Apresentação e comentários Marcus Vinícius da Cunha; [Tradução Roberto Cavallari Filho]. – São Paulo: Ática, 2007.

    [2] DEWEY, John, Experiência e Natureza; Lógica: a teoria da investigação; A arte como experiência: Vida e educação; Teoria da vida moral/ John Dewey; traduções de Murilo Otávio Paes Leme, Anísio S. Teixeira, Leonidas Gontijo de Carvalho. – 2. Ed. – São Paulo: Abril Cultura, 1985. – Traduzido de Interest and Effort in Education, edição da Houghton Mifflin Co. Of Boston ( Riversidade Educational Monographs, sob a direção de Henry Suzzallo). (N. do E.)

     

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Denis Plapler

Denis Plapler

Formado como Sociólogo pela PUC-SP e Mestre em Filosofia da Educação pela USP.