Educadores

  • 03

    JUL

    2015

    A ESCOLA PRECISA SER LAICA PARA SER DEMOCRÁTICA

    por Denis Plapler em 03/07/2015


    Independente de crermos ou não em determinada religião, apropriando-nos das respostas oferecidas por ela a questões inalcançáveis aos seres humanos e delegadas a metafísica, é inegável que as religiões carregam um vasto conhecimento histórico sobre o ser humano, o mundo e a vida. Embora muitas vezes transformadas em manuais didáticos com receitas rígidas de como se deve viver, os mitos presentes nos livros considerados sagrados por seus fieis são ricos em significados, se pobres fossem não encantariam a tanta gente por tanto tempo. Portanto devemos acima de tudo respeitar a diferença de credo presente nas diversas culturas existentes, inclusive para promover a educação para paz.

    Se criamos instituições nas quais pretendemos educar nossas crianças, estas instituições precisam ao mesmo tempo respeitar a diversidade religiosa presente na natureza humana, sem impor qualquer tipo de crença e sem esquecer de cumprir o seu papel de educar para racionalidade, ainda que reconhecendo os seus limites.

    Reconhecer os limites da razão significa não apenas aceitar a força do nosso lado emocional inconsciente, como reconhecer a dificuldade humana de conviver com a angústia causada pela consciência de morte, pelo medo do sofrimento, pela falta de respostas a questões relacionadas a nossa própria existência. Não sabemos de onde viemos e nem ao menos se somos capazes de transcender o estado físico após a vida. Assim sendo, se faz compreensível a necessidade humana de buscar respostas, ou simplesmente conforto, em filosofias de vida que lhe façam sentido.

    Contudo, a Escola enquanto instituição que se pretende educativa deve não apenas abrir espaço para as questões da filosofia e da metafísica, mas também das artes, dos esportes e, acima de tudo, estimular a habilidade racional, lógica e ética, para evolução da consciência de si, do outro e do meio ambiente. A Escola precisa  permitir que seus estudantes se debrucem sobre a investigação do mundo, do ser humano e da vida de forma científica, para assim construir o conhecimento vinculado a experiência de forma significativa.

    Logo, para respeitar as evoluções da ciência, assim como a diversidade cultural e religiosa, a escola precisa necessariamente ser laica, inclusive para possibilitar ao estudante investigar livremente as religiões que mais lhe interessa e assim construir por si mesmo a sua fé.

    Uma escola que segue uma religião determinada impõe as crianças respostas prontas, educa de forma dogmática, autoritária, opressora, castradora e determinista.

    A escola laica enxerga  a criança como protagonista de sua própria educação, liberta o indivíduo ao compreender as diversas possibilidades de investigação sobre a vida, respeita e estimula a possibilidade de escolha individual e enxerga a importância destes fundamentos para constituição de nossa subjetividade.

    Enquanto precisarmos de escolas para educarmos nossa sociedade, assim como do Estado para garantir nossa segurança, ambos precisam ser laicos para respeitar a liberdade individual, seja ela cética ou religiosa.

    Certa vez, quando ministrava um curso de Filosofia para crianças de 9 e 10 anos no Viver, coloquei algumas cartolinas no chão e sugeri que as crianças registrassem ali todo tipo de pergunta que passasse por suas cabeças. Depois de um certo tempo as cartolinas estavam completamente preenchidas. No encontro seguinte sugeri que cada uma delas escolhesse, dentre tantas questões, aquelas que mais lhe despertassem interesse, para posteriormente realizar o esforço de tentar elas mesmas responderem as perguntas ali levantadas. Recolhi as respostas e, no terceiro encontro, preparei uma apresentação com o que haviam produzido. Dentre tantas frases maravilhosas, nunca me esqueço especialmente de uma que dizia:

    Eu sei que depois que a gente morre vai pro céu, mas a gente vai voando ou aparece lá de repente?

    Nenhum de nós soube responder.

     

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Denis Plapler

Denis Plapler

Atuou como consultor da UNESCO para o Ministério da Educação para iniciativa de fomento a política pública de Inovação e Criatividade na Educação Básica. Mestre em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da USP. Cientista Social pela PUC - SP.  Criador do Portal do Educador, foi membro da equipe de coordenação da CONANE, membro da equipe de fomento ao III Manifesto pela Educação,  da rede Românticos Conspiradores e um dos membros fundadores da Rede Nacional de Educação Democrática. Participou da Comissão de Difusão da Jornada de Educação Centrada na Pessoa, em Barcelona.  Como educador atuou com EJA, onde encontrou adultos que desejavam resgatar a experiência escolar que lhes foi negada na infância, atuou com os meninos aprisionados na Fundação Casa pelos maiores infratores e, por mais de dez anos, acompanhou crianças em assembleias, elaborando suas regras e resolvendo seus conflitos, assim como aprendendo através de projetos desenvolvidos a partir de seus interesses, de forma não seriada,  no Colégio Viver.