Educadores

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    ABR

    2015

    A Assembleia como instrumento pedagógico para o exercício da Democracia

    por Denis Plapler em 13/04/2015

    Pensar a educação que queremos oferecer às crianças implica em refletirmos sobre o mundo que desejamos construir coletivamente. Portanto, pensar a educação é pensar a política.

    Utilizar a assembleia como instrumento pedagógico implica em reconhecer a escola como um ambiente propício para o exercício da democracia, com objetivo de construir uma sociedade mais justa, mais democrática e consequentemente mais saudável. Construir uma sociedade democrática exige a prática da democracia, compreendendo o ser humano como um animal político que se define por sua vida em sociedade.

    Entendendo que a política é o oposto da guerra, se não estamos fazendo guerra estamos fazendo política. O diálogo é nosso instrumento de combate a violência.

    A vida em sociedade é um grande e constante trabalho em grupo, na escola temos a oportunidade de refletir, conversar, elaborar propostas e resolver nossos conflitos de forma coletiva. O exercício da assembleia implica em nos reconhecermos como corresponsáveis pelos problemas da nossa comunidade, neste caso a escolar, exercitando o reconhecimento da nossa corresponsabilidade social com o mundo, enxergando a escola como uma construção coletiva no microcosmos, e o mundo como uma construção social e histórica no macrocosmos.

    Na assembleia é possível criar as regras de convivência em conjunto com os estudantes, assim como elaborar diversas propostas visando a melhoria da coexistência.

    O exercício da própria assembleia em si, já precisa ser uma prática democrática. A assembleia precisa de fato dar voz aos estudantes, de modo que as relações entre os educadores e os estudantes se tornem horizontais. A escola precisa deixar previamente claro quais princípios não estão abertos a votação para não deslegitimar a assembleia. A pauta da assembleia, por exemplo, já precisa ser decidida coletivamente para não tornar a assembleia apenas um momento de informes verticais dos educadores para os estudantes. Uma lousa no pátio central da escola, disponível para que qualquer pessoa possa anotar um assunto do seu interesse, facilita o processo. Se a quantidade de assuntos for muito grande é possível votar os assuntos prioritários ou até votar pela divisão dos assuntos em rodas menores, de acordo com os interesses pessoais, para que depois as propostas possam ser levadas para votação. Assim como também é possível criar comissões que se responsabilizem pelos problemas que por falta de tempo não puderam ser resolvidos já na assembleia.

    Na assembleia a autoridade é centrada na palavra e todos tem o mesmo poder de voto. Assim, as relações se tornam menos hierárquicas entre os educadores e os estudantes e os vínculos se fortalecem.

    A visita de convidados que esporadicamente possam se interessar por participar da assembleia pode ser positiva, escutando, argumentando, mas sem participar da votação. Pois posteriormente não estarão na escola para cumprir o que foi estabelecido.

    É importante que as tarefas da assembleia sejam realizadas pelos próprios estudantes, mesmo que isso aconteça de forma gradativa, a exemplo do levantamento das pautas, registro e elaboração da ata, contagem dos votos...

    Assim, a assembleia funciona como uma grande reunião periódica, na qual todos tem a oportunidade de falar e escutar uns aos outros, reforçando a consciência do coletivo.

    A assembleia nos permite questionar as atitudes que devemos assumir diante dos conflitos do cotidiano, substituindo advertências, suspensões, castigos, câmeras de vigiar, pela prática do diálogo, que propicia o reconhecimento profundo de si e do outro.

    Passei dez anos acompanhando as assembleias no Colégio Viver, em Cotia, e recordo de uma vez que chegou à assembleias um problema complicado. Dois estudantes esqueceram seus estojos na escola e, no dia seguinte, todo material já não estava mais dentro.

    Como resultado de discussões calorosas, a assembleia propôs que este material fosse reposto no prazo de uma semana. Deixaríamos ao centro da roda uma caixa, na qual poderíamos depositar os lápis, borrachas, apontadores, tesouras, etc.

    Para nossa surpresa, espontaneamente, em alguns minutos, os estudantes se levantaram, foram até suas próprias mochilas, recolheram todo tipo de material que encontraram e encheram a caixa que estava ao centro da roda. O material foi suficiente para preencher o prejuízo e ainda formar uma caixa de uso coletivo com o excedente, que passou a ser utilizado no curso de Artes. Esta atitude despertou nos próprios estudantes aplausos, conscientes do que haviam conquistado e consequentemente muito constrangimento nos responsáveis pelo “furto”.

    Demonstraram naquele momento compreender que o ser humano é um ser social, que vive de forma coletiva, que a vida em sociedade é um constante trabalho em grupo, assim como a vida na escola, que precisamos ser responsáveis com nossas coisas, mas também, que precisamos fazer do ambiente em que convivemos um espaço de confiança, de respeito e não de medo, para que assim possamos construir relações humanas de qualidade.

     

    A assembleia é um grande aprendizado para todos que dela participam. Exige dos educadores a reflexão constante sobre os mais variados temas que nela aparecem, fazendo com que inevitavelmente tenham que expor seus valores e visões de mundo que acabam servindo como parâmetro para as crianças. Portanto a assembleia é um exercício constante do pensar e agir ético dentro da escola e da sociedade.

     

     

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Denis Plapler

Denis Plapler

Atuou como consultor da UNESCO para o Ministério da Educação para iniciativa de fomento a política pública de Inovação e Criatividade na Educação Básica. Mestre em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da USP. Cientista Social pela PUC - SP.  Criador do Portal do Educador, foi membro da equipe de coordenação da CONANE, membro da equipe de fomento ao III Manifesto pela Educação,  da rede Românticos Conspiradores e um dos membros fundadores da Rede Nacional de Educação Democrática. Participou da Comissão de Difusão da Jornada de Educação Centrada na Pessoa, em Barcelona.  Como educador atuou com EJA, onde encontrou adultos que desejavam resgatar a experiência escolar que lhes foi negada na infância, atuou com os meninos aprisionados na Fundação Casa pelos maiores infratores e, por mais de dez anos, acompanhou crianças em assembleias, elaborando suas regras e resolvendo seus conflitos, assim como aprendendo através de projetos desenvolvidos a partir de seus interesses, de forma não seriada,  no Colégio Viver.